O tempo passou e deixou a impressão de que toda tarde naquele apartamento era ensolarada e de que todo dia tínhamos bolo formigueiro saindo do forno. Minha caneca era verde, a do meu irmão do meio, azul. O mais novo ainda tomava mamadeira, mas também ganhou uma igual —marrom— quando cresceu o bastante. E éramos felizes.

     Lembro da minha impaciência naquelas férias que, pareciam, não tinham mais fim. Parecia não chegar nunca o dia de estrear meu uniforme amarelo e, finalmente, aprender a ler. Minha mãe sentava-se no sofá, colocava um livro entre nós e lia, apontando paciente as ilustrações.
     Livros são caros, os tempos não eram fáceis, e então tínhamos só uns poucos. Uns poucos e abençoados livrinhos que meu pai comprava com o salário sacrificado de três empregos. Uns poucos e abençoados que minha mãe não se importava de ler e reler para um menino faminto de histórias.
     Às vezes uma panela no fogo ou o choro de um outro filho a obrigavam a apressar a coisa e pular uma parte ou outra. Mas não adiantava: de tanto ouvir aquelas mesmas histórias, eu já sabia cada uma delas de cor. Podia recitar de memória cada página, cada frase. Então, eu a fazia parar, voltava a página, apontava e "lia" o que ela havia esquecido. Paciência de mãe é uma coisa maravilhosa.
     E talvez isso resuma meu amor aos livros: eu os lia antes de saber ler.
     À noite, meu pai chegava e, no pé da cama, contava aventuras para meus irmãos e eu. E, olha, está para nascer alguém que imite melhor o urso Baloo.


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